LULA: “FORAM NUM BANCO DA SUÍÇA PROCURAR O LULA E ACHARAM O AÉCIO”
Ato pela defesa da democracia com Lula
No dia em que brasileiros de várias capitais do País foram às ruas protestar contra a perseguição política e judicial ao ex-presidente Lula e pela saída de Michel Temer, Lula fez um discurso contundente; "Foram num Banco da Suíça procurar o Lula e acharam o Aécio”, disse o ex-presidente, ao falar sobre a falta de provas contra ele; "O problema deste país não é o Lula, é o golpe. É o presidente que eles colocaram no lugar da Dilma, sem que ele tivesse disputado a eleição", discursou Lula para cerca de 120 mil manifestantes que enfrentaram o frio na avenida Paulista; "Nós temos que nos preocupar não é com o que está acontecendo comigo. A gente tem que se preocupar é com o que está acontecendo com o nosso País, e com o povo brasileiro. Acontecendo com milhões de trabalhadores, que já perderam o emprego. Com milhares de jovens que não têm perspectivas de emprego"
247 -" Numa avenida Paulista tomada por cerca de 120 mil manifestantes que enfrentaram o frio paulistano em sua defesa, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um discurso contundente na noite desta quinta-feira, 20, contra a perseguição política que vem sendo vítima e contra o governo de Michel Temer e sua agenda de reformas.
"Foram num Banco da Suíça procurar o Lula e acharam o Aécio”, disse Lula, ao falar sobre a falta de provas contra ele. "O problema deste país não é o Lula, é o golpe. É o presidente que eles colocaram no lugar da Dilma, sem que ele tivesse disputado a eleição", discursou Lula. "Nós temos que nos preocupar não é com o que está acontecendo comigo. A gente tem que se preocupar é com o que está acontecendo com o nosso País, e com o povo brasileiro. Acontecendo com milhões de trabalhadores, que já perderam o emprego. Com milhares de jovens que não têm perspectivas de emprego", afirmou o ex-presidente. Este país só vai ser consertado quando tivermos um governo com credibilidade", afirmou.
Lula criticou a situação de deriva em que se encontra o País. "Esse país tá sem autoridade, sem credibilidade. O judiciário já não cumpre sua função de garantir a constituição. Nós sabemos que o presidente não manda nada. Que o congresso não governa para o povo desse país. Como não conseguem me derrotar na política, eles querem me derrotar com processo. É todo dia um processo, um depoimento", afirmou Lula.
Lula desafiou os procuradores da operação Lava Jato. "Por favor me desmoralizem, mostrem uma prova. O que não pode, é pra me perseguir acabar com a indústria desse país, com a Petrobras, com o emprego", afirmou.
Lula voltou a pedir eleições gerais como solução para a crise política do País. "Se o Temer tivesse um mínimo de compromisso com o povo brasileiro, ele renunciaria hoje e chamaria eleições diretas em caráter emergencial", disse o líder petista."
LULA: MORO FOI ATÉ BONZINHO E ME DEIXOU COM A PERUA DE 1982
Em entrevista no programa de José Trajano no Youtube, com a participação também dos jornalistas Juca Kfouri e Antero Grecco, o ex-presidente Lula comentou nesta quinta-feira 20 a decisão do juiz Sergio Moro que confiscou R$ 606 mil de suas contas bancárias, todos os imóveis e dois veículos; "O Moro foi condescendente comigo porque ele me deixou a perua de 1982. Inclusive ela até foi roubada. Espero que eles achem ela", ironizou; na conversa, Lula disse também que quando chegou à presidência "tinha uma obsessão que era provar que poderia governar melhor que a elite que vinha sendo governo"; assista ao vivo
247 -"Em entrevista concedida ao programa Na Sala do Zé, do jornalista José Trajano, com a participação ainda de Juca Kfouri e Antero Grecco, o ex-presidente Lula comentou nesta quinta-feira 20 a decisão do juiz Sergio Moro que confiscou R$ 606 mil de suas contas bancárias, todos os imóveis e dois veículos.
"O Moro foi condescendente comigo porque ele me deixou a perua de 1982. Inclusive ela até foi roubada. Espero que eles achem ela", ironizou.
Na conversa, Lula disse também que quando chegou à presidência "tinha uma obsessão que era provar que poderia governar melhor que a elite que vinha sendo governo". "As pessoas não respeitam você pelo seu tamanho e sim pelo seu caráter. Ou tem ou não tem", afirmou.
Lula falou ainda sobre a política externa de seu governo: "Quando voltei de Davos pela primeira vez falei para o Celso Amorim [então ministro das Relações Exteriores]: nós vamos mudar a geopolítica desse negócio". "Lembro da minha primeira reunião no G8, todo mundo levantou quando o Bush chegou. Eu não. Pois ele foi lá e sentou na nossa mesa", acrescentou.
O petista disse estar "pensando em criar um grupo de trabalho para analisar os efeitos nefastos da reforma trabalhista no país". Questionado por que não fez uma reforma política em seu governo, o ex-presidente respondeu que os parlamentares não querem mudar o status quo e lembrou que "quem tem que fazer a reforma política não é o presidente, são os partidos, através de seus deputados".
Perguntado se "o PT errou", uma vez que Lula é hoje o candidato com maior rejeição, depois de ter deixado a presidência com mais de 80% de avaliação positiva, o ex-presidente afirmou que "o PT errou porque tinha nascido para mudar o jeito de fazer política", mas "não fez nada diferente do que já vinha sendo feito desde sempre na política". "Nosso erro não chega a 10% do que eles falam", disse.
"Acontece que eles querem acabar com o PT", acrescentou. "Truncaram a democracia e querem truncar a possibilidade de o PT voltar", denunciou. Ele destacou também que "ninguém nesse país, nem Prestes, sofreu o massacre que" ele sofre.
Ao falar sobre o governo Dilma, Lula criticou o programa de desonerações. "Faltou compreensão de que, independentemente das eleições, você deveria parar de desonerar", disse. Segundo o ex-presidente, Dilma "não percebeu que a água só estava saindo da caixa d´água, não estava entrando".
"Quando Dilma apresentou um orçamento negativo, eu me assustei. Porque eu jamais apresentaria um orçamento negativo", afirmou. Para Lula, "Dilma foi vítima do comportamento de que a política não estava no cotidiano dela". "Ela tinha dificuldade nessa relação político. Eu acho que às vezes ela achava que uma conversa era desnecessária", analisou.
Sobre um "sentimento de desesperança" na população, acentuado pelos jornalistas, Lula admitiu que o PT perdeu "parte de sua base". "Eu estou tomando tiro de escopeta todo dia", lembrou, em parte justificando sua rejeição.
Os jornalistas questionaram se não foi um erro insistir na reeleição de Dilma em 2014. Lula disse que, como não houve conversa com ela a esse respeito, ele entendeu que ela gostaria de sair candidata. "Era um direito legítimo dela, eu falei 'não vou mexer com isso'". Mas reconheceu: "Eu ganharia as eleições com muita facilidade em 2014".
Segundo Lula, sua disputa pela presidência contra o tucano José Serra em 2002 "foi civilizada". "Já com o Alckmin não foi. Parece que ele mamou até os 14 anos, empinou pipa na frente do ventilador. Fica bravo", relatou, sobre o governador paulista.
Questionado se não faltou diálogo entre ele e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso para evitar o atual clima de tensão entre petistas e anti-petistas hoje no País, Lula lembrou de sua relação sempre civilizada com o tucano. Mas fez a seguinte análise: "Eu acho que o Fernando Henrique Cardoso, como um intelectual, não soube digerir o meu sucesso".
Ele revelou que houve uma tentativa de se marcar um encontro com o cacique tucano. "Nós não temos nada um contra o outro", destacou. Mas reclamo que, após terem escolhido uma casa para a conversa, "foi um intermediário lá e no dia seguinte estava na imprensa!".
O Rio Grande do Sul, perdeu ontem um dos mais importantes jornalistas, PAULO SANTANA, e além de ser jornalista, um grande comunicador, cronista do cotidiano, um texto maravilhoso, um gremista daqueles de uma paixão imortal pelo seu GRÊMIO.
Esse blog, homenageia singelamente um grande gremista, um grande jornalista que também respeitava muito o eterno rival , INTERNACIONAL.
Autor de “Soledad no Recife”, que recupera os últimos dias de Soledad Barrett, mulher do Cabo Anselmo, entregue por ele à repressão. Escreveu ainda “O filho renegado de Deus”, primeiro lugar no Prêmio Guavira de Literatura 2014
Leio na Folha de São Paulo a noticia de que a mãe de José Dirceu foi enterrada em Minas Gerais, Notícia curta, da qual anoto.
"Segundo amigos da família, Dona Olga era poupada do noticiário sobre seu filho desde a explosão do escândalo do Mensalão, em 2005. Sempre assistia a filmes em canal fechado.
Preso em novembro de 2013, o ex-ministro pediu que a mãe não fosse informada sobre a detenção antes do Ano Novo. Para justificar a ausência dele nas festas do fim de ano, a família disse à matriarca que Dirceu estava fora do país.
Dona Olga, que nos últimos anos apresentava falhas de lucidez, também não soube que a casa onde morava fora confiscada, em maio do ano passado, por decisão do juiz Sergio Moro. "
Apesar do esforçado tom neutro da notícia, em parágrafos ocultos pude sentir a tristeza e as circunstâncias de José Dirceu na última visita ao corpo da mãe. E fiquei sentido no íntimo. E me impressionou não existir um só repórter que lhe pedisse, fale com o seu coração, José Dirceu. Fale o que não lhe deixam falar. Fale da sua injustiça, do seu projeto de vida que desejam matar. Conte a sua dor. E como sou ruim, muito ruim de improviso, recupero para ele um trecho do meu romance "O filho renegado de Deus", publicado em 2013. E pouco me importa que chamem a isso de oportunismo. Pouco importa. A tua dor é nós, Zé Dirceu:
Ali como agora: a mãe não está morta. Essa é uma ideia que resiste a toda e qualquer lógica, até mesmo aos fatos, aos acontecimentos vividos e testemunhados. A mãe não está morta. Para o sentimento, para a percepção essencial, que diabo são os fatos? O concreto vira falso concreto, o palpável vira engano, e de tal modo que a evidência de ver como São Tomé vira uma burla. O concreto é o que resiste na consciência, ainda que não se possa mais pegá-lo. Isso, contra toda a tradição racionalista, era um tabu, um obelisco erguido contra si, a que ele não podia olhar nos anos de clandestinidade. Pois não encaramos aquilo que contraria a proclamação de nossos ideais públicos. Sobre o que se opõe ao que falamos corremos de olhar detido. Mas o coração rumoreja, e rebelde em silêncio continua a sua busca, daquela que os olhos não veem mais, daquela que insistem em lhe falar que não está viva. O coração continua, e faz seu caminho onde só veem pedras, urtigas, raízes murchas. Ele não sabia, não podia nem queria saber, porque grande era a dor sufocada, que no mais íntimo ele continuava a procurar uma forma e conformação para a mãe. Disso não tomava consciência, porque além de se confessar uma fraqueza era também um ser de intimidade vergonhosa, o olhar para mulheres com alguma coisa dela. Ou da sua feminilidade, ou da sua bravura, ou dos gestos do mais calado carinho. De uma generosidade até o sacrifício. Mães assim se faziam dignas do mais louco amor.
Mas ele não sabia, ninguém devia saber. Isso era desnudo de absoluto segredo, isso estava naquele capítulo e jarro precioso, onde se guarda, e se defende com todas as armas, um caráter próprio, a esquisitice de uma personalidade. No entanto, ainda aí, apesar dos embuços, estava um traço detectável em consultas no divã ou prospecção psicanalítica. O que ele não sabia, nem desconfiava da existência, é que ele sonhava com a vida da mãe mesma, ela própria, sem fantasia ou corpo disfarçado em outras, vale dizer, se o pudor destas linhas for jogado fora, ele sonhava com a sua volta, sim, ela própria, a sua pessoa concreta, real, se assim se pode expressar. "Mas como o real, se ela não mais existia?", perguntava-se em seus diálogos ocultos de si, do mundo consciente. "Ora, ora...", respondia-se ainda mais entranhado, com uma pergunta de desejo absoluto, "os mortos não voltam?". Nesse diálogo de vozes ocultas, nessas vozes que passavam à revelia da sua mente apresentável, nessas falas que fluíam lá no quintalzinho da casinha do bequinho estreito e escondido no fundo de si, ele se falava e sabia ser possível uma dilatação da vida da mãe depois da morte, ou seja, o absurdo de que a sua consciência de visita desprezava, "ah, os mortos", com um estalo nos lábios que significava "os vivos depois da morte, que bobagem".
Então nós que o narramos, que o vemos, temos vontade de sorrir para a sua grande certeza, aquela da consciência apresentável, "ah, os mortos...". Pois ele desprezava o absurdo como os amantes apaixonados dizem desprezar a sua paixão. "Ah, aquela mulher, isso é passado". E, ao perceberem que não são vigiados, voltam com uma sôfrega pergunta, "você tem visto essa mulher?", para a continuação ainda mais objetiva e neutra, "onde ela mora agora? em que rua?", e mais, "está sozinha? é bonita ainda?". Ah, os mortos. Coisa mais óbvia e redundante: quem não sabe que os mortos estão mortos? E o coração, no mesmo passo em que fala alto essas obviedades, fala-se com uma revolta ainda mais funda e secreta, "não, não, eu a quero com todas as minhas forças, em que lugar mora e vive essa mulher que falo ser passado?". E por isso Ele, ateu, materialista, em plena maturidade ainda a queria em uma vida nova, como se morta estivesse viva, como se aquela mãe no caixão fosse um engano, ou, de modo mais decisivo e corajoso para o seu coração de materialista, "A mãe continuava em uma segunda vida". Se é uma lei universal que os mortos estão mortos, essa lei não se aplica a ela, porque se foi morta, hoje está viva.
Então o seu peito de conformar, querendo traduzir o absurdo à razão, dava à mãe uma nova vida, mas com os sinais do tempo, a saber, ela em sua segunda estaria um pouco curva, mais baixinha, e de cabelos brancos. Um tantinho mais magra também, porque na velhice – uma velhice exterior, já se vê, por acréscimos de artifícios -, porque a mãe envelhecida fazia dieta para controlar a glicose no sangue, e por isso estaria um pouco mais magra. E coisas assim, creia-se, não são uma fantasia, divagação ou desnorteio poético. A poesia se dá dentro de cada um liberto, quando nos abandonamos ao que nos faz pessoas. Pois assim se deu, de repente, quando lia algo referente a Hemingway, sentado a um canto e janela, esquecido de si, do mundo, somente atenção exterior ao que lia. Na altura do cemitério, passou ao seu lado uma senhora baixinha, de cabeça branca, com o rosto da mãe, com a respiração ofegante da mãe, com o andar e a beleza da mãe. Foi impressionante como ela se fez ver, sem lhe bater no ombro, sem lhe falar, pois apenas o chamou com a sua passagem e presença. Sem o cheiro nauseante das flores no caixão, ela era uma senhora viva, silenciosa e viva, que lhe anunciava "olha-me, vê-me, eu te digo: a nossa ligação continua. Eu te salvo e te redimo". Era ela, a voz possuía o calor e timbre do afeto identificador. Pois há um lugar fora das delegacias policiais onde o amor identifica pessoas sem precisar de fotos, impressões digitais e outras evidências inúteis. Ele é determinante da singularidade de uma pessoa como um todo, ao mesmo tempo que a decompõe em traços resistentes aos abalos dos anos ou disfarces. É a temperatura da voz que chega em um telefonema, não importa quanto tempo haja corrido, é até um anúncio de voz que não se emite, em frases, palavras que ninguém escuta, a não ser o amado, o conhecedor, cuja percepção desvenda a fala em um olhar.
Assim a mãe passou por ele na altura do cemitério. Ele não soube o que fazer então. Vontade lhe deu de pular e tocar, tocar aquela senhora (mas ela seria desfeita como bolha de sabão?), e mais vontade lhe deu de pular sobre ela, tocar-lhe a nuca, beijá-la no cangote, mas ela reagiria "quem é você?".
- Eu sou o teu filho, mãe. Nota como fiquei metido a besta. Leio, anoto e discuto autores reconhecidos no mundo. Nota como estou vestido, bem vestido, diferente de quando era nu. Eu agora como e bebo o que nunca comeste ou bebeste. E ainda assim eu sei, eu sou teu filho, mãe. Eu sou aquele que contigo comeu tanajura.
Essas coisas que dão vontade, por timidez ou medo, e nesse caso foi mais medo que timidez, porque para a mãe ele jamais seria tímido, na hora ele teve um medo menor, de gente pequena, indigna do menino: na hora teve medo de cair no mais vergonhoso ridículo. Que coisa feia seria se, contra todas as evidências, se a mãe se voltasse e o olhasse, ainda que com uma denúncia no olhar:
- Eu não sou a mãe. Eu não me chamo a mãe.
Mas ainda aqui ele a olharia pela penúltima vez, nunca pela última, para lhe gritar:
- Por que você me engana?
Na hora foi esse medo de escândalo, de ridículo que o paralisou. Mas o medo mais grave lhe veio depois, ao refletir. E se ele houvesse dado um pulo para a ilusão? Isso queria dizer, um pulo para o nada, um pulo para agarrar a bolha de sabão? Ou tocar na imagem do espelho, onde em lugar de um corpo de carne só se encontra um reflexo? Mas aí a desilusão era bem diferente do que ilude a matéria bolha de sabão, a matéria espelho e imagem. Seria uma desilusão de identidade. Tocar na mãe e vê-la desfazer-se no ar, não, o seu amor o impediria. Ela não seria morta duas vezes, uma naquele caixão, outra no seu reaparecimento. Então ele viu, ao levantar os olhos daquela boba e descartável página, a passagem da mãe ao seu lado, que não lhe tocou com as mãos nem lhe falou com a boca, mas que o levou a vê-la dizendo-lhe:
- Não procures, filho, o mundo em representações vãs, não procures a vida no que é mais vaidade, ouro de latão que vida. Não te percas. Eu sou o teu caminho há muito. Mas foges, insistes em não me ver. Tu queres uma sonata, eu sou ela. Tu queres um desenho, uma pintura, isso já te dei. Tu queres a revelação impossível do carinho, basta que me sigas. Volta a tua vista para meu vestido sujo.
E foi tão rápido em instantes físicos, contáveis, estreitados e comprimidos em segundos, foi tão rápido. Mas que duração! É ela, ele se disse, é ela, e não soube ao certo se se abandonava à sua presença, se se dizia, "para com isso, é impossível, A mãe morreu", mas como? Ela era palpável, visível, estava passando ao seu lado às 13 horas de uma sexta-feira, é ela, ele se disse. E ficou em estado de êxtase, esquecido de que era um empedernido ateu, um rígido materialista, abalado que estava no ônibus por um movimento do coração. É ela. Então os transportes dos cristãos, dos loucos, dos místicos de todas as religiões é real, é real, e ele não sabia, porque dava a todos a categoria de ilusões de alienados. Mas isso na hora ele não pensou, descobriu depois sem a ninguém falar, guardou em si aquela língua de pentecostes, porque era mais abrasante que suas proclamadas crenças. A mãe passava ao lado mui digna, velhinha, pobre mas em belo vestido, talvez porque, depois de tantos anos, muito houvesse melhorado. Elegante, com uma elegância natural, sem alarde. Olhando-a bem – e o coração olha melhor à distância -, olhando-a bem, os anos haviam tirado dela o ar selvagem, ou o aspecto livre de mulher índia, quem sabe ela houvesse ficado uma índia civilizada. Ou melhor, na aparência exterior domesticada. A mãe ali, tão rápido, talvez fosse uma concessão do afeto. Talvez com lógica amorosa, naquele amor que é cego para a miséria material, talvez o sentimento corrigisse o passado.
“Cadê as panelas deles? Acabaram?, questiona Lula em Diadema
Durante a posse da nova direção do PT em Diadema (SP), Lula questionou onde estão as panelas e a indignação dos que apoiaram o golpe no Brasil
15/07/2017 16h21
Lula participa da posse em Diadema
"Durante o evento, Lula falou sobre a sentença de Sérgio Moro e disse que o juiz está julgando politicamente. “Nunca acreditei que ele fosse me absolver. Eles não estão julgando o Lula, estão julgando o nosso governo e as coisas boas que fizemos nesse país. Eles me condenaram porque estão subordinados a prestar contas com a imprensa”, afirmou.“Eu quero saber como estão os coxinhas agora com o Michel Temergovernando o país. Cadê as panelas deles, acabaram?”, questionou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na manhã deste sábado (15), em Diadema (SP), durante a posse de Adi dos Santos Lima, que assume a nova direção do PT da cidade.
Para o ex-presidente, se a condenação não acontecesse, o golpe não faria sentido. “O golpe não fecha se eu não for condenado”, disse Lula, que afirma estar tranquilo por saber que “a única prova daquele processo é a prova da minha inocência. Tenho a consciência tranquila por saber que nenhum daqueles que estão me processando, é mais honesto do que eu”.
Aos seus acusadores, Lula dá o recado: “Enquanto eles não provarem nada contra mim, vou andar por esse país para ser julgado por vocês”, diz.
Imprensa
Lula falou sobre a perseguição jurídica e midiática que vem sofrendo há anos e ressaltou o motivo pelo qual a Rede Globo está contra o governo de Michel Temer. “Sabe por que a Globo está tentando derrubar o Temer agora? É porque ela está preocupadíssima em encontrar um candidato para me enfrentar em 2018”, disse. O ex-presidente lembrou ainda que o Jornal Nacional já completou mais de 20 horas com notícias ruins a seu respeito. “E por que eles não conseguem me quebrar? Porque eu não sou eu, eu sou vocês. Eles não conseguem me derrubar porque as asas que eu voo não são minhas, são as asas dos trabalhadores e dos jovens desse país”.
Partido dos Trabalhadores
Com orgulho, o ex-presidente falou também sobre a história do Partido dos Trabalhadores e os feitos que o PT realizou nos últimos 12 anos no país. “Foi esse partido que teve o presidente que entrou para a história como o presidente que mais fez universidade e escolas técnicas no Brasil. Tenho orgulho de dizer que o tempo em que eu presidi esse país, os trabalhadores viveram melhor. Sei que não fiz tudo, mas tenho orgulho de olhar para o povo e dizer que, nos últimos 12 anos, fizemos a maior política de inclusão social do mundo”, completou.
Elite
Sobre a elite brasileira, Lula ressaltou que ela nunca teve interesse que o pobre chegasse à universidade. “O erro que cometi foi fazer o povo sonhar e viver melhor. O que nós temos orgulho, parecem que eles têm ódio. Porque eles não querem que as pessoas debaixo subam o degrau da escada da inclusão social”, disse Lula.
Ao final de seu discurso, Lula disse que quer que o povo brasileiro volte a sorrir, volte a trabalhar e ter uma vida digna. “Eu, um nordestino que só foi comer pão aos 7 anos de idade, quero dizer: contem comigo porque nós vamos consertar esse país!”."
"É pouco provável que alguém tenha se surpreendido com a condenação do juiz Sergio Moro contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva a nove anos e meio de prisão na Lava Jato. Era esse o capítulo final de uma tragédia que arrasta o Brasil para o precipício há mais de três anos e que, como toda novela, necessita de um último capítulo em que os "mocinhos" derrotam os "bandidos". Curiosamente, a sentença saiu no mesmo dia em que foi divulgado o trailer do misterioso filme "A Lei é para Todos", cujos patrocinadores são mantidos em sigilo. Vinte e quatro horas depois, num pronunciamento na sede do PT, Lula disse que seus algozes estavam condenados a condená-lo – uma vez que prisioneiros da narrativa que criaram ou na qual se deixaram envolver – e reivindicou uma nova candidatura à presidência da República.
Esse é o quadro atual e indica que a crise brasileira ainda poderá se arrastar por mais tempo justamente porque tem como ponto central as emoções contraditórias em torno do mesmo personagem – a devoção e a gratidão que muitos brasileiros sentem por Lula e a mistura de ódio e preconceito que outros tantos já sentiam por ele ou foram adestrados a sentir. Essa divisão não foi quebrada pela Lava Jato. Mesmo com toda a força dos meios de comunicação, o "caso Lula" não conseguiu criar um mínimo consenso na sociedade contra o ex-presidente. Ao contrário. Em todas as pesquisas, Lula se isola na dianteira e, em alguns levantamentos, tem chance até de vitória em primeiro turno. A grosso modo, o Brasil estaria dividido entre um terço que quer vê-lo presidente, uma fração que tem orgasmos em imaginá-lo na cadeia e a grande maioria que flutua.
O problema, para a direita brasileira, é que a sentença chegou num momento especialmente negativo do ponto de vista simbólico. Lula, o mais popular presidente da história do Brasil, foi condenado à prisão, em regime fechado, na mesma semana em que Michel Temer, o mais impopular, conseguiu reverter um relatório adverso na Câmara dos Deputados, em que é denunciado por corrupção passiva. Se isso não bastasse, o senador Aécio Neves (PSDB-MG), recordista de inquéritos na Lava Jato, foi salvo pelo conselho de ética da casa. No PMDB, tanto o ex-ministro Geddel Vieira Lima como o "homem da mala" Rodrigo Rocha Loures, ambos da copa e cozinha de Temer, ganharam o direito de ir para casa, mesmo acusados de receber gigantescas propinas.
Ou seja: a cada dia que passa, a sociedade brasileira enxerga com maior clareza a seletividade do Poder Judiciário. E se a justiça tem lado ela se torna imediatamente injusta aos olhos da população – o que contribui para a narrativa de que Lula é, mais uma vez, vítima de perseguição política. Isso significa que as próximas pesquisas eleitorais devem indicar um impacto nulo ou até positivo para o ex-presidente. Não apenas pela revolta diante da disparidade de critérios contra Lula e seus adversários, mas também porque o regime atual tem-se mostrado incapaz de debelar a crise econômica. E, gostem ou não, a única lembrança de tempos felizes na economia, para a grande maioria da população, é o governo Lula.
Esse quadro cria um dilema ainda maior para o País. De um lado, uma parcela da direita irá pressionar os três desembargadores do TRF-4 para que condenem rapidamente Lula e o inabilitem politicamente. Mas o Brasil será mais uma vez humilhado se os votos se três juízes se sobrepuserem aos anseios dos eleitores, depois que deputados e senadores decidiram rasgar os 54 milhões de votos da presidente Dilma Rousseff, num impeachment sem crime de responsabilidade. A única saída capaz de devolver a esperança ao Brasil – e também de tirar essa batata quente do Judiciário – é antecipar as eleições presidenciais, como vem propondo, inclusive, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. E se Lula tiver que ser batido, que o seja nas urnas."