segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

A CHACINA DE CAMPINAS -SP

O monstro: sobre a chacina de Campinas, misoginia e notícias

Talvez o crime de Campinas seja justamente sobre a manutenção das relações de poder, do status quo, em um momento em que as disputas de narrativas sobre os casos de feminicídio trazem à tona crimes perversos que – é importante ressaltar – acontecem diariamente, embora nem sempre sejam tão noticiados.

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Adrian Ghenie. “Pie Fight Study 2”, 2008.

Por Daniela Lima.

"Quando um caso de violência contra mulheres chega à grande imprensa, o debate é orientado quase sempre pela mesma pergunta: qual a motivação do crime? Mas o que é que motiva a formulação dessa pergunta? Deixando de lado o procedimento jurídico que levará em consideração as motivações do crime dentro de um protocolo de investigação policial, o senso-comum e os consumidores de notícias em geral desejam encontrar  uma explicação individual, específica e subjetiva. E a pergunta pela motivação do crime atende a essa necessidade. Muitos dizem: “era louco”, “era um monstro”, “não era humano”.
Quando se diz que alguém que assassina brutalmente uma mulher o fez simplesmente porque era “louco” se reforça o estigma do louco perigoso e, ao mesmo tempo, se isenta o assassino de responsabilidade. É uma forma de dizer: “ele não sabia o que estava fazendo”. Já a ideia de “monstro” pretende colocar os casos de violência contra as mulheres como exceção, coisa que aconteceria fora do mundo, realizada unicamente por monstros desumanos.
O assassino de Campinas não é um monstro: ele é assustadoramente humano, capaz de um mal naturalizado e banalizado que vitima mulheres todos os dias. O ponto aqui é trazer de volta esses casos para o mundo, entendendo não se tratarem de exceções. Fugir da perspectiva dominante que invariavelmente termina por justificar a violência culpando a vítima.
O que faz a chacina de Campinas ser um caso emblemático em relação aos esforços de procurar possíveis justificativas para o injustificável é que o assassino deixou uma carta. Existe então um sem número de possibilidades e de psicologismos que poderiam vir à tona para evitar que se diga: esse caso não é exceção. Criam-se paredes de contenção para evitar que se fale sobre misoginia.
O assassino antecipa a acusação de misoginia na carta, estabelecendo as regras dos jogos de verdade e falsas justificativas que o fariam escapar da acusação. É a carta que deve ser lida, escrutinada, interpretada – e não a sociedade e as suas relações de poder.
Sidnei Ramis de Araújo diz na carta que não odiava mulheres, ou seja, que não era misógino, que odiava tão somente as “vadias” – curiosamente todas as mulheres da família de sua ex-companheira eram vistas como “vadias”. Neste ponto, o assassino reforça a ideia do senso comum de que toda violência pode ser justificada por meio da desumanização. É sob a ideia perversa de que “vadias” não são humanas e que, portanto, podem sofrer toda forma de violência que a misoginia se esconde e se sustenta.
A carta se inicia com Ramis reivindicando para si a identidade de um “homem de bem”, assim como aconteceu com os assassinos de Luiz Carlos Ruas. Essa repetição nos leva a perguntar: o que define um “homem de bem”? Talvez o “homem de bem”, neste contexto, seja aquele que trabalhe para a manutenção das relações de dominação de uns (sempre os mesmos) sobre outros (também sempre os mesmos), ou seja, aquele que use a violência para a manutenção do status quo.
O assassino revela também um ódio ao que ele chama de “sistema feminista” – um delírio absoluto em um país cuja taxa de feminicídios é a quinta maior do mundo, mas são tempos vertiginosos em que o absurdo se estabelece e se enraíza como a verdade do senso comum.
Essa visão do feminismo parece retomar a famosa frase de Rebecca West: “eu mesma nunca consegui saber direito o que é feminismo. Só sei que me chamam de feminista quando expresso sentimentos diferentes de um capacho”. Fica expresso na carta um ódio às feministas, que, no fim das contas, são todas as mulheres que, como diz West, expressam sentimentos diferentes de um capacho. Pior: um ódio contra todas as mulheres, independentemente de como se expressem.
Há ainda a questão ética envolvida na publicação da carta do assassino, pois além da exploração do crime como espetáculo, o texto da carta traz em diversos momentos incitações de violência contra “vadias” – e, como dito acima, “vadias” são todas as mulheres. Ramis incita a violência misógina retomando o antigo discurso da “legítima defesa da honra”, que sustentou por décadas um discurso jurídico para inocentar “homens de bem” que cometiam femicídios. Destaco este trecho da carta:
“A vadia foi ardilosa e inspirou outras vadias a fazer o mesmo com os filhos, agora os pais quem irão se inspirar e acabar com as famílias das vadias.”
É preciso analisar aqui o que leva a imprensa a publicar o discurso de ódio contido nessa carta, sobretudo em um momento em que a mesma parece reproduz e reforça uma suposta divisão entre as mulheres “de boa índole”, “belas, recatadas e do lar” e as “vadias”. Os dois discursos se imbricam em uma perigosa e perversa abertura para justificar o feminicídio.
A partir daí é que precisamos prosseguir o debate sobre as múltiplas tecnologias do poder que naturalizam o feminicídio por meio de separações, tais quais “mulheres de bem” e “vadias”. Heleieth Saffioti nos diz: “não obstante a força de todas as tecnologias sociais, especialmente as de gênero, […] a violência ainda é necessária para manter o status quo”*. Talvez o crime de Campinas seja justamente sobre a manutenção das relações de poder, do status quo, em um momento em que as disputas de narrativas sobre os casos de feminicídio trazem à tona crimes perversos que – é importante ressaltar – acontecem diariamente, embora nem sempre sejam tão noticiados.
* SAFFIOTTI, Heileieth. Gênero, patriarcado, violência. São Paulo: Expressão Popular, 2015.
***
Daniela Lima é escritora e ativista. Autora de Anatomia (2012), Sem Importância Coletiva (2014) eSem Corpo Próprio (2015 – em andamento). Teve contos traduzidos para a revista The Buenos Aires Review (2013) e foi finalista do prêmio literário Exercícios Urbanos (2008) na categoria contos. Colaborou para diversas revistas e sites, entre eles Blog do Instituto Moreira Salles, Carta Capital,Margem Esquerda, Territórios Transversais e Pesquisa Fapesp. É comentarista da Rádio Manchete, biógrafa da escritora Maura Lopes Cançado e fundadora do coletivo feminista Jandira (2014). Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente, às segundas."
Pensem  nisso enquanto  eu vos  digo  até amanhã.

A GLOBO E A LAVA JATO MATARAM EM CAMPINAS

Pensem  nisso  enquanto  eu  vos  digo  até amanhã.

CRIME LAMENTÁVEL EM CAMPINAS-SP

Autor de chacina em Campinas escreveu carta sobre seu plano; veja trechos

Homem que matou a ex-mulher, o filho e mais dez pessoas em festa de réveillon enviou texto a amigos dizendo: "vou levar o máximo de pessoas daquela família comigo"
Alexandre Hisayasu ,
O Estado de S. Paulo
01 Janeiro 2017 | 17h44
Atualizado 01 Janeiro 2017 | 21h43
Foto: DENNY CESARE/CODIGO 19
Chacina em Campinas
Autor dos disparos invadiu festa de réveillon
CAMPINAS -" O técnico de laboratório Sidnei Ramis de Araújo, de 46 anos, deixou cartas e áudios gravados tentando justificar por que matou a ex-mulher, o filho e mais dez pessoas na noite de Réveillon. No material, obtido com exclusividade pelo Estado, ele afirma que as acusações de que teria abusado do menino são mentira, diz que foi vítima de uma injustiça e de uma “sacanagem” e que não conseguia mais “suportar tudo isso.”
Para se referir à ex-mulher, Isamara Filier, à mãe dela e a outras mulheres da família dela, ele só usa uma palavra, o tempo todo: “vadia”. E revela os planos de matá-las. “Quanto mais ela distanciar ele de mim, mais ódio eu fico dela e menos peso na minha consciência eu vou ter”, diz em um dos áudios, endereçado “aos policiais”, modificado pela última vez no dia 30.
Logo no começo deste arquivo, ele pede desculpas. “Quero pedir desculpa até mesmo para a polícia, para o resgate. Vou gerar muito transtorno para vocês.” O plano original, pelo que diz nos arquivos, era cometer o crime no Natal. “Eu tentei pegar a vadia no almoço do Natal e dia da minha visita, assim pegaria o máximo de vadias da família, mas como não tenho prática não consegui.”
A princípio, parecia que não tinha a intenção de também matar o filho, já que ele direciona cartas a ele e também fala diretamente com o menino nos áudios. Mas em um dado momento, no final da gravação “aos policiais”, parece ter outra ideia, ao se comparar a Deus. “Filho, papai te ama muito. Julguem o que quiser julgar, cada um tem seu jeito de amar. Deus não crucificou o filho dele por amor aos outros filhos, como fala na Bíblia? Eu não vou deixar você sofrer na mão dessa vadia mais não, filho”, diz
Antes, alega inocência e acusa Isamara e a mãe dela, já morta, de mentirosas. Diz que quer ir para o inferno para “buscar essa velha maldita”, em relação à ex-sogra. “Até peço para meus amigos... eles sabem que eu não acredito mais em Deus porque Deus sabe da verdade. Existem quatro seres que sabem da verdade. Deus, o diabo, a vadia e a mãe dela. Elas sabem que eu nunca fiz mal para o João Victor. Se me garantir que eu vou para o inferno me enterrar de ponta-cabeça, eu peço para me enterrarem de ponta-cabeça.”
Veja abaixo alguns trechos de duas cartas. Foram excluídas citações que ele faz de outras pessoas e acusações sem comprovação. Foram deixadas apenas as partes em que ele relata seu plano de matar a família e comentários políticos. Também foi mantida a sua própria grafia.
"Não tenho medo de morrer ou ficar preso, na verdade já estou preso na angustia da injustiça, além do que eu preso, vou ter 3 alimentações completas, banho de sol, salário, não precisarei acordar cedo pra ir trabalhar, vou ter representantes dos direito humanos puxando meu saco, tbm não vou perder 5 meses do meu salário em impostos.
Morto tbm já estou, pq não posso ficar contigo, ver vc crescer, desfrutar a vida contigo por causa de um sistema feminista e umas loucas. Filho tenha certeza que não será só nos dois quem vamos nos foder, vou levar o máximo de pessoas daquela família comigo, pra isso não acontecer mais com outro trabalhador honesto. Agora vão me chamar de louco, más quem é louco? Eu quem quero justiça ou ela que queria o filho só pra ela? Que ela fizesse inseminação artificial ou fosse trepar com um bandido que não gosta de filho.
No Brasil, crianças adquirem microcefalia e morrem por corrupção, homens babacas morrem e matam por futebol, policiais e bombeiros morrem dignamente pela profissão, jovens do bem (dois sexos) morrem por celulares, tênis, selfies e por ídolos, jornalistas morrem pelo amor à profissão, muitas pessoas pobres morrem no chão de hospitais para manter políticos na riqueza e poder!
Eu morro por justiça, dignidade, honra e pelo meu direito de ser pai! Na verdade somos todos loucos, depende da necessidade dela aflorar!
A vadia foi ardilosa e inspirou outras vadias a fazer o mesmo com os filhos, agora os pais quem irão se inspirar e acabar com as famílias das vadias. As mulheres sim tem medo de morrer com pouca idade.
Aproveitando, peço aos amigos que sabem da minha descrença, que não rezem e por mim, se fazerem orações façam por meu filho ele sim irá precisar! Quero ser enterrado com a cabeça para baixo se garante que assim posso ir pro inferno buscar a velha vadia (que era até ministra de comunhão na igreja) que morreu antes da hora. Demorei pra matar ela pq me apaixonei por um anjo lindo! 
(...)
Ela não merece ser chamada de mãe, más infelizmente muitas vadias fazem de tudo que é errado para distanciar os filhos dos pais e elas conseguem, pois as leis deste paizeco são para os bandidos e bandidas. A justiça brasileira é igual ao lewandowski, (um marginal que limpou a bunda com a constituição no dia que tirou outra vadia do poder) um lixo!
Se os presidentes do país são bandidos, quem será por nós?
Filho, não sou machista e não tenho raiva das mulheres (essas de boa índole, eu amo de coração, tanto é que me apaixonei por uma mulher maravilhosa, a Kátia) tenho raiva das vadias que se proliferam e muito a cada dia se beneficiando da lei vadia da penha!
Não posso dizer que todas as mulheres são vadias! Más todas as mulheres sabem do que as vadias são capazes de fazer!
Filho te amo muito e agora vou vingar o mal que ela nos fez! Principalmente a vc! Sei o qto ela te fez chorar em não deixar vc ficar comigo qdo eu ia te visitar. Saiba que sempre te amarei! Toda mulher tem medo de morrer nova, ela irá por minhas mãos!"
"(...) eu ia matar as vadias (eu já tinha a arma e raspei a numeração pra não prejudicar quem me vendeu, ela precisava de dinheiro). Família de policial morto não recebe tantos benefícios com a família de presos. Cadê os ordinários dos direitos humanos? Estão sendo presos por ajudar bandidos né? Paizeco de bosta.
Sei que me achava um frouxo em não dar uns tapas na cara dela, más eu não podia te dizer as minhas pretensões em acabar com ela! Tinha que ser no momento certo. Quero pegar o máximo de vadias da família juntas.
A injustiça campineira me condenou por algo que não fiz! Espero que eles sejam punidos de alguma forma.
Chega!! Ela tem que pagar pelo que fez."

A insensatez  humana, um  crime  sem medidas, que manchou, a sociedade de  CAMPINAS, SP, e  manchou  de sangue  um  dia  de confraternização.
Lamentável, o  ser  humano  perdendo, aqui  e  ali,  a  sua racionalidade e isso  que  nos dizemos   racionais,   somos,  seres  que precisamos ter  amor  em  nosso  coração,  esse ato, é a  prova,  é o retrato puro  de desamor, e irracionalidade  e o  que é  pior,  acompanhado de um  ódio sem limites.
Se olharmos   as manchetes de qualquer  dia  em jornais, ou  uma mídia qualquer, estamos  cheios de  "SIDNEI" espalhados  por ai   e  isso  serve  para  nossas  reflexões.
Supostamente, um  crime  passional, mas  há ingredientes  outros que devemos  refletir, as  relações estão  muito  deterioradas  entre  as pessoas, casais, não há  diálogos, não há discussão dos problemas,  as  pessoas estão  pensando em  si.
Simplesmente, trágico, horrível, o  que aconteceu em CAMPINAS.

Pensem  nisso  enquanto  eu  vos  digo  até amanhã.


OS SALVADORES DA PÁTRIA DE PLANTÃO

Possível filiação de Justus ao PMDB já causa atritos no partido

: <p>Roberto Justus</p>
"A possibilidade do empresário Roberto Justus se filiar ao PMDB para tentar disputar a Presidência da República já causa ruídos no partido; integrantes da legenda acham que o publicitário pode querer furar a fila interna, atropelando nomes que já se colocam para disputar outros cargos; Justus, por esse raciocínio, dificilmente conseguiria de fato ser escolhido candidato pelo partido; poderia então tentar disputar o governo de São Paulo —mas Paulo Skaf, presidente da Fiesp, também é candidato ao cargo, que disputou em 2014."

DO  BRASIL  247

A  todo  o  momento  na  vida política brasileira  aparecem  os"salvadores  da pátria" que procuram  na  esteira desse conturbado   momento  que passa o  País se apresentam como  os  homens que  vão  resolver os problemas  brasileiros.
Muitos  desses  senhores,  ao pensarem que  porque  são famosos, ricos,  ou  outro  fator acham-se já  de pronto aptos a postularem  cargos  como  o  de presidente do  Brasil.
Nada  contra  qualquer  brasileiro  que queira  ser presidente  do  Brasil apenas é um momento  inadequado, não  é a fama  de  A  ou  B  que  habilita alguém  a um  cargo público, pois  muitos  procuram se  beneficiar a si  próprio.

Pensem nisso  enquanto  eu  vos  digo  até amanhã.

ZYGMUNT BAUMAN: "AS REDES SOCIAIS SÃO UMA ARMADILHA"



Zygmunt Bauman: “As redes sociais são uma armadilha”

Ele é a voz dos menos favorecidos. O sociólogo denuncia a desigualdade e a queda da classe média. E avisa aos indignados que seu experimento pode ter vida curta




"Zygmunt Bauman acaba de completar 90 anos de idade e de tomar dois voos para ir da Inglaterra ao debate do qual participa em Burgos (Espanha). Está cansado, e admite logo ao começar a entrevista, mas se expressa com tanta calma quanto clareza. Sempre se estende, em cada explicação, porque detesta dar respostas simples a questões complexas. Desde que colocou, em 1999, sua ideia da “modernidade líquida” – uma etapa na qual tudo que era sólido se liquidificou, e em que “nossos acordos são temporários, passageiros, válidos apenas até novo aviso” –, Bauman se tornou uma figura de referência da sociologia. Suas denúncias sobre a crescente desigualdade, sua análise do descrédito da política e sua visão nada idealista do que trouxe a revolução digital o transformaram também em um farol para o movimento global dos indignados, apesar de que não hesita em pontuar suas debilidades.





O polonês (Poznan, 1925) era criança quando sua família, judia, fugiu para a União Soviética para escapar do nazismo, e, em 1968, teve que abandonar seu próprio país, desempossado de seu posto de professor e expulso do Partido Comunista em um expurgo marcado pelo antissemitismo após a guerra árabe-israelense. Renunciou à sua nacionalidade, emigrou a Tel Aviv e se instalou, depois, na Universidade de Leeds (Inglaterra), onde desenvolveu a maior parte de sua carreira. Sua obra, que arranca nos anos 1960, foi reconhecida com prêmios como o Príncipe das Astúrias de Comunicação e Humanidades de 2010, que recebeu junto com Alain Touraine.
Bauman é considerado um pessimista. Seu diagnóstico da realidade em seus últimos livros é sumamente crítico. Em A riqueza de poucos beneficia todos nós?, explica o alto preço que se paga hoje em dia pelo neoliberalismo triunfal dos anos 80 e a “trintena opulenta” que veio em seguida. Sua conclusão: a promessa de que a riqueza acumulada pelos que estão no topo chegaria aos que se encontram mais abaixo é uma grande mentira. Em Cegueira moral, escrito junto com Leonidas Donskis, Bauman alerta sobre a perda do sentido de comunidade em um mundo individualista. Em seu novo ensaio, Estado de crise, um diálogo com o sociólogo italiano Carlo Bordoni, volta a se destacar. O livro da editora Zahar, que já está disponível para pré-venda no Brasil, trata de um momento histórico de grande incerteza.
Bauman volta a seu hotel junto com o filósofo espanhol Javier Gomá, com quem debateu no Fórum da Cultura, evento que terá sua segunda edição realizada em novembro e que traz a Burgos os grandes pensadores mundiais. Bauman é um deles.
Pergunta. Você vê a desigualdade como uma “metástase”. A democracia está em perigo?
Resposta. O que está acontecendo agora, o que podemos chamar de crise da democracia, é o colapso da confiança. A crença de que os líderes não só são corruptos ou estúpidos, mas também incapazes. Para atuar, é necessário poder: ser capaz de fazer coisas; e política: a habilidade de decidir quais são as coisas que têm ser feitas. A questão é que esse casamento entre poder e política nas mãos do Estado-nação acabou. O poder se globalizou, mas as políticas são tão locais quanto antes. A política tem as mãos cortadas. As pessoas já não acreditam no sistema democrático porque ele não cumpre suas promessas. É o que está evidenciando, por exemplo, a crise de migração. O fenômeno é global, mas atuamos em termos paroquianos. As instituições democráticas não foram estruturadas para conduzir situações de interdependência. A crise contemporânea da democracia é uma crise das instituições democráticas.


"Foi uma catástrofe arrastar a classe media ao precariat. O conflito já não é entre classes, mas de cada um com a sociedade”

P. Para que lado tende o pêndulo que oscila entre liberdade e segurança?
R. São dois valores extremamente difíceis de conciliar. Para ter mais segurança é preciso renunciar a certa liberdade, se você quer mais liberdade tem que renunciar à segurança. Esse dilema vai continuar para sempre. Há 40 anos, achamos que a liberdade tinha triunfado e que estávamos em meio a uma orgia consumista. Tudo parecia possível mediante a concessão de crédito: se você quer uma casa, um carro... pode pagar depois. Foi um despertar muito amargo o de 2008, quando o crédito fácil acabou. A catástrofe que veio, o colapso social, foi para a classe média, que foi arrastada rapidamente ao que chamamos de precariat (termo que substitui, ao mesmo tempo, proletariado e classe média). Essa é a categoria dos que vivem em uma precariedade contínua: não saber se suas empresas vão se fundir ou comprar outras, ou se vão ficar desempregados, não saber se o que custou tanto esforço lhes pertence... O conflito, o antagonismo, já não é entre classes, mas de cada pessoa com a sociedade. Não é só uma falta de segurança, também é uma falta de liberdade.
P. Você afirma que a ideia de progresso é um mito. Por que, no passado, as pessoas acreditavam em um futuro melhor e agora não?
R. Estamos em um estado de interregno, entre uma etapa em que tínhamos certezas e outra em que a velha forma de atuar já não funciona. Não sabemos o que vai a substituir isso. As certezas foram abolidas. Não sou capaz de profetizar. Estamos experimentando novas formas de fazer coisas. A Espanha foi um exemplo com aquela famosa iniciativa de maio (o 15-M), em que essa gente tomou as praças, discutindo, tratando de substituir os procedimentos parlamentares por algum tipo de democracia direta. Isso provou ter vida curta. As políticas de austeridade vão continuar, não podiam pará-las, mas podem ser relativamente efetivos em introduzir novas formas de fazer as coisas.




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O sociólogo Zygmunt Bauman. SAMUEL SÁNCHEZ


P. Você sustenta que o movimento dos indignados “sabe como preparar o terreno, mas não como construir algo sólido”.
R. O povo esqueceu suas diferenças por um tempo, reunido na praça por um propósito comum. Se a razão é negativa, como se indispor com alguém, as possibilidades de êxito são mais altas. De certa forma, foi uma explosão de solidariedade, mas as explosões são muito potentes e muito breves.
P. E você também lamenta que, por sua natureza “arco íris”, o movimento não possa estabelecer uma liderança sólida.
R. Os líderes são tipos duros, que têm ideias e ideologias, o que faria desaparecer a visibilidade e a esperança de unidade. Precisamente porque não tem líderes o movimento pode sobreviver. Mas precisamente porque não tem líderes não podem transformar sua unidade em uma ação prática.
P. Na Espanha, as consequências do 15-M chegaram à política. Novos partidos emergiram com força.


"O 15-M, de certa forma, foi uma explosão de solidariedade, mas as explosões são potentes e breves"

R. A mudança de um partido por outro não vai a resolver o problema. O problema hoje não é que os partidos estejam equivocados, e sim o fato de que não controlam os instrumentos. Os problemas dos espanhóis não estão restritos ao território nacional, são globais. A presunção de que se pode resolver a situação partindo de dentro é errônea.
P. Você analisa a crise do Estado-nação. Qual é a sua opinião sobre as aspirações independentistas da Catalunha?
R. Penso que continuamos com os princípios de Versalhes, quando se estabeleceu o direito de cada nação baseado na autodeterminação. Mas isso, hoje, é uma ficção porque não existem territórios homogêneos. Atualmente, todas as sociedades são uma coleção de diásporas. As pessoas se unem a uma sociedade à qual são leais, e pagam impostos, mas, ao mesmo tempo, não querem abrir mão de suas identidades. A conexão entre o local e a identidade se rompeu. A situação na Catalunha, como na Escócia ou na Lombardia, é uma contradição entre a identidade tribal e a cidadania de um país. Eles são europeus, mas não querem ir a Bruxelas por Madri, mas via Barcelona. A mesma lógica está emergindo em quase todos os países. Mantemos os princípios estabelecidos no final da Primeira Guerra Mundial, mas o mundo mudou muito.
P. As redes sociais mudaram a forma como as pessoas protestam e a exigência de transparência. Você é um cético sobre esse “ativismo de sofá” e ressalta que a Internet também nos entorpece com entretenimento barato. Em vez de um instrumento revolucionário, como alguns pensam, as redes sociais são o novo ópio do povo?
R. A questão da identidade foi transformada de algo preestabelecido em uma tarefa: você tem que criar a sua própria comunidade. Mas não se cria uma comunidade, você tem uma ou não; o que as redes sociais podem gerar é um substituto. A diferença entre a comunidade e a rede é que você pertence à comunidade, mas a rede pertence a você. É possível adicionar e deletar amigos, e controlar as pessoas com quem você se relaciona. Isso faz com que os indivíduos se sintam um pouco melhor, porque a solidão é a grande ameaça nesses tempos individualistas. Mas, nas redes, é tão fácil adicionar e deletar amigos que as habilidades sociais não são necessárias. Elas são desenvolvidas na rua, ou no trabalho, ao encontrar gente com quem se precisa ter uma interação razoável. Aí você tem que enfrentar as dificuldades, se envolver em um diálogo. O papa Francisco, que é um grande homem, ao ser eleito, deu sua primeira entrevista a Eugenio Scalfari, um jornalista italiano que é um ateu autoproclamado. Foi um sinal: o diálogo real não é falar com gente que pensa igual a você. As redes sociais não ensinam a dialogar porque é muito fácil evitar a controvérsia… Muita gente as usa não para unir, não para ampliar seus horizontes, mas ao contrário, para se fechar no que eu chamo de zonas de conforto, onde o único som que escutam é o eco de suas próprias vozes, onde o único que veem são os reflexos de suas próprias caras. As redes são muito úteis, oferecem serviços muito prazerosos, mas são uma armadilha."
Estado de crise. Zygmunt Bauman e Carlo Bordoni. Editora Zahar. 192 págs., 39,90 reais.

Pensem   nisso enquanto  eu  vos  digo  até  amanhã.

NÃO TENHAMOS MEDO DE AMAR

"É preciso te falar das minhas noites De angústias e dor Só o tempo é quem vai dizer Quem vai perder no jogo do amor Eu não quero mais ...